Um pedido de sushi de R$ 2 mil que nunca chegou ao destino esperado foi o ponto de partida de uma das trajetórias mais curiosas da creator economy brasileira recente. Foi a partir desse episódio que Sérgio Mota, até então fotógrafo, decidiu gravar, pela primeira vez, um vídeo falando diretamente com a câmera.

"Pedi dois mil reais de sushi, vamos provar comigo", disse no conteúdo que mudaria tudo.

O vídeo viralizou. No dia seguinte, ele repetiu o formato. Depois, por um mês inteiro. O que começou como um improviso virou consistência  e, mais do que isso, identidade.

"Eu nunca tinha gravado um vídeo comigo falando. Eu era fotógrafo antes. Editei e postei no TikTok, e ele viralizou muito."

A partir dali, o crescimento foi rápido. Restaurantes começaram a enviar produtos, os números subiram e o "menino do delivery" começou a se consolidar como uma figura reconhecível dentro de um dos nichos mais competitivos da internet.

Construindo uma identidade em meio à saturação

No universo das reviews de comida, onde milhares de criadores disputam atenção, Sérgio encontrou um diferencial ao transformar o exagero em linguagem.

"Eu sempre foquei em pedir comida e transformar isso em conteúdo. Acho muito importante focar em uma coisa e repetir bastante, até aquilo virar a sua cara."

A estratégia não ficou restrita a um único formato. Ele adaptou trends, criou quadros e levou o conceito de "delivery" para diferentes narrativas, sempre mantendo um elemento central: sua própria personalidade.

"No meu caso, esse exagero é o que mais chama atenção, o que mais marca. É isso que faz as pessoas reconhecerem: 'isso é ele'."

Hoje, com cerca de 4 milhões de seguidores no TikTok, quase o mesmo número no Instagram e um canal em crescimento no YouTube, o creator entende que o reconhecimento veio, mas não sem dúvidas no caminho.

O momento em que o jogo virou

Apesar do crescimento acelerado, a sensação de instabilidade acompanhou boa parte do processo.

"Até um tempo atrás, eu não acreditava muito que isso fosse dar certo. Eu tinha a sensação de que, a qualquer momento, eu poderia perder tudo."

A virada veio em um momento inesperado  e simbólico. Após perder um contrato anual com a Samsung por mudar o estilo de conteúdo, ele foi novamente procurado pela marca meses depois.

"Eles me contrataram por uma semana para produzir conteúdo em Paris. O valor que tinham me pegado em um ano, pagaram em uma semana. Ali eu entendi de verdade que aquilo era o meu trabalho."

Entre algoritmo e criatividade

Em um ambiente guiado por mudanças constantes, Sérgio não tenta "vencer" o algoritmo  ele se adapta a ele.

"Eu nunca fico no mesmo conteúdo. Estou sempre criando coisas novas."

Um exemplo disso foi o desenvolvimento do quadro em que testa receitas, mesmo sem saber cozinhar, o formato nasceu de tentativa e erro.

"Fiz uns dez vídeos diferentes até chegar no formato que tenho hoje. As pessoas gostam porque se identificam."

A lógica é simples: testar, entender o que funciona e evoluir. Se um formato perde força, outro entra no lugar.

"Não tenho preguiça de criar. Esse trabalho me permite colocar minha criatividade em prática."

Quando o conteúdo vira negócio

A transição de creator para empreendedor veio com a Crush Cookie  e, novamente, começou com um conteúdo viral.

Durante uma viagem aos Estados Unidos, Sérgio e sua sócia provaram os cookies da rede Crumbl,  marca americana conhecida pelo cardápio rotativo semanal e por ter construído uma das comunidades mais engajadas do food digital, com dezenas de milhões de seguidores nas redes. Os vídeos gravados ali viralizaram.

"A gente pensou: isso aqui pode ser uma oportunidade muito boa de criar um storytelling nosso e abrir algo próprio."

A marca nasceu sem experiência prévia no setor, mas com um ativo essencial: a narrativa.

"Eu acho que o mais difícil é construir esse storytelling. Fazer com que as pessoas se sintam pertencentes àquilo."

O lançamento seguiu essa lógica. Antes mesmo de abrir oficialmente, spoilers foram sendo liberados nas redes. O resultado foi imediato.

"Quando abrimos, esgotou muito rápido. Em geral, acabava em meia hora. Teve um lote que esgotou em 15 minutos."

Apesar do sucesso, Sérgio não romantiza a ideia de que todo influenciador deve criar um negócio. Para ele, audiência sem narrativa não sustenta o produto.

"Não é por ser grande ou pequeno que você deve abrir uma empresa. O mais importante é ter visão de negócio."

Mais do que vendas: conexão

Se no início o reconhecimento vinha pelos vídeos, hoje a relação com o público passa diretamente pela marca.

"As pessoas falam muito mais da Crush Cookie do que dos meus vídeos."

O produto virou ponto de contato, conversa e identificação  especialmente entre o público mais jovem.

"Eles chegam falando: 'provei essa semana', 'quero muito experimentar'. Isso cria uma proximidade muito grande."

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