Um diretor de tecnologia que está avaliando uma plataforma de CRM raramente começa pelo site do fornecedor. Começa perguntando a alguém de confiança. Essa pergunta pode acontecer em um canal do Slack de uma comunidade de RevOps, em um grupo do LinkedIn de CTOs, em uma conversa no corredor de uma conferência setorial ou em um fórum especializado da área. Nesses espaços, nomes de fornecedores circulam, experiências são compartilhadas, reputações se constroem e se destroem, tudo antes de qualquer interação formal com um time de vendas.

Esse fenômeno é o que a literatura de marketing chama de dark social: o fluxo de recomendações e influência que acontece em canais não rastreáveis por ferramentas convencionais de atribuição. Pesquisa da RadiumOne com 940 milhões de usuários identificou que 84% de todo conteúdo compartilhado online passa por canais privados ou semi privados.

Para o mercado B2B, o impacto é direto: levantamento da Forrester identificou que 92% dos compradores entram no processo formal de avaliação já com pelo menos um fornecedor em mente. Survey da Wynter com executivos de marketing B2B mostrou que 73% consideram recomendação de pares o fator mais influente na construção de uma lista de fornecedores a considerar. O vendedor que recebe um pedido de demonstração está, na maioria dos casos, confirmando uma preferência que já se formou em outro lugar.

92% dos compradores B2B entram no processo formal já com um fornecedor em mente. 73% chegaram a esse fornecedor por recomendação de pares. Essa preferência se formou numa comunidade profissional. O time de vendas só soube quando recebeu o pedido de demo.

O dado relevante para marcas B2B não é que essas conversas existem, é onde elas existem. Uma parcela significativa acontece em comunidades profissionais estruturadas: comunidades de nicho no Slack, como as de RevOps, Product-Led Growth e Marketing Operations, que reúnem milhares de profissionais ativos; grupos e newsletters do LinkedIn organizados em torno de funções e setores; fóruns especializados como o Pavilion para líderes de receita; e eventos com componente de comunidade forte, nos quais a conversa de corredor tem peso desproporcional sobre decisões. Esses espaços têm uma característica que os torna estrategicamente relevantes: são acessíveis. Uma marca pode construir presença genuína neles, contribuindo com conteúdo útil, facilitando discussões, sendo recomendada por membros ativos. A pergunta é se está fazendo isso.

A Salesforce entendeu essa dinâmica antes de a maioria das empresas SaaS nomeá-la. A comunidade Trailblazer funciona como um ecossistema onde profissionais da área compartilham soluções, debatem implementações e recomendam a plataforma para pares que chegam buscando orientação. O espaço opera como motor de reputação construído por quem usa o produto, não por quem o vende.

O resultado documentado é consequente: membros ativos da comunidade geravam o dobro de negócios, fechavam deals duas vezes maiores e tinham três vezes menos probabilidade de cancelar do que clientes não engajados. O mecanismo de influência que opera em canais privados passa, em grande parte, por membros da Trailblazer recomendando a plataforma em suas próprias redes.

A HubSpot operou com lógica semelhante ao construir uma comunidade de profissionais de marketing e vendas antes de ser o software dominante nessas funções. Ao criar espaços onde esses profissionais trocavam conhecimento sobre as próprias práticas, independentemente de usarem HubSpot ou não, a empresa construiu presença nos círculos de influência onde decisões de compra se formam. Quando um membro do grupo recomendava uma ferramenta, a HubSpot já tinha uma posição naquela conversa.

O argumento para construir comunidades profissionais em B2B não se reduz à geração de leads. É de posicionamento nos espaços onde as preferências se formam antes que qualquer lead exista. Marcas que investem em comunidades onde seus melhores clientes e os profissionais do setor trocam experiências estão presentes nas conversas que precedem 92% das decisões de compra.

No Brasil, esse fenômeno tem uma camada adicional. A adoção quase universal do WhatsApp como canal de comunicação profissional cria um volume expressivo de recomendações e conversas sobre fornecedores em grupos privados, de executivos de um mesmo setor, de redes de alumni, de associações setoriais. Esses grupos não são rastreáveis por nenhuma ferramenta de atribuição, mas exercem influência real sobre decisões de compra.

Marcas que constroem comunidades profissionais abertas, nas quais membros ativos circulam entre esses grupos privados, criam um elo entre o que acontece nos canais visíveis e o que acontece nas conversas que ninguém vê. As que dependem apenas de canais rastreáveis estão otimizando para a parte visível de uma jornada que começa muito antes.

Por Jen Medeiros, CEO da comuh, empresa especializada na gestão de comunidades e ecossistemas de negócios. Palestrante e especialista na criação e gestão estratégica de comunidades com 15 anos de experiência.

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