Publicar com frequência, conhecer a audiência, entregar resultados para as marcas e manter uma comunidade engajada. Para muitas mulheres que trabalham como criadoras de conteúdo, a expectativa é que uma boa entrega abra caminho para campanhas maiores e contratos mais bem remunerados. Mas crescer nessa carreira exige compreender também como os projetos são negociados e quem participa das decisões.
A questão não se limita às influenciadoras. Mulheres que atuam em agências, equipes de marketing e áreas de relacionamento com criadores podem liderar campanhas e se tornar referências na execução sem receber a mesma autonomia para definir estratégia, orçamento ou escolher parceiros.
Para Joyce Romanelli, sócia-diretora da Fluxus e professora universitária, dedicação e competência não explicam sozinhas como uma carreira avança, seja ela na creator economy ou em estruturas mais tradicionais de trabalho. “Fomos ensinados a acreditar que competência técnica, esforço e resultado seriam suficientes para garantir progressão. Para muitas mulheres, essa crença pode ser ainda mais forte. Existe uma socialização para não criar problema, valorizar a harmonia, demonstrar gratidão pelas oportunidades e acreditar que um bom trabalho será naturalmente reconhecido. Só que organizações também funcionam por critérios informais, relações de confiança, visibilidade e acesso aos espaços de decisão”, afirma Romanelli.
Mais entregas nem sempre significam mais poder de negociação
Na rotina de uma influenciadora, explica a especialista, trabalhar mais pode significar aceitar uma campanha com entregas adicionais, produzir formatos não previstos inicialmente ou manter uma rotina de publicação difícil de sustentar. Dentro das empresas, pode significar assumir mais contas, resolver urgências e garantir que as campanhas aconteçam.
Esse esforço pode ser valorizado sem alterar a posição da profissional na negociação seguinte. A influencer recebe um novo convite, mas nas mesmas condições. A especialista de marketing ganha mais responsabilidades, mas não participa das decisões sobre verba e estratégia.
“Se toda vez que o reconhecimento não chega a resposta é trabalhar ainda mais, podemos criar um ciclo perigoso. A pessoa aumenta sua entrega sem descobrir qual era realmente o critério que impedia seu avanço. Em algum momento, ela está trabalhando dobrado sem necessariamente estar mais próxima do que de fato deseja.”
Quem conhece os critérios das melhores oportunidades?
Uma marca pode informar que busca criadores com afinidade com seu público, boa taxa de engajamento e capacidade de gerar resultados. Esses critérios são importantes. Mas a escolha também pode passar por relações já estabelecidas, indicações, confiança da equipe e participação em conversas às quais nem todos têm acesso.
Nas empresas, a lógica é semelhante. Uma profissional pode cumprir suas metas sem saber que, para chegar à liderança, precisaria apresentar projetos à diretoria ou assumir uma campanha de maior visibilidade. “Se eu digo a uma profissional que ela precisa entregar determinado resultado para avançar, mas depois considero decisivo algo que nunca foi colocado na conversa, ela está disputando uma posição sem conhecer todas as regras”, diz Romanelli.
Isso não significa que relacionamento e influência sejam critérios ilegítimos. O problema é tratá-los como decisivos sem deixar claro como as pessoas podem desenvolvê-los e demonstrá-los.
Negociar vai além do cachê
Na economia dos influenciadores, negociar pode envolver o valor de uma campanha, mas também o prazo de produção, o direito de uso da imagem, o número de revisões e a exclusividade exigida pela marca. Para quem está dentro de uma empresa, pode envolver autonomia, participação na definição da estratégia e reconhecimento por uma carteira de clientes que cresceu.
Na prática, isso pede conversas mais específicas. Quais resultados justificariam ampliar um contrato? Uma entrega adicional será remunerada? Se uma profissional passar a liderar as decisões de uma campanha, quando seu cargo e sua remuneração serão revistos?
Também cabe às marcas e agências explicitar seus critérios. Se determinada experiência é necessária para liderar uma conta ou receber projetos maiores, ela precisa ser comunicada.
Para Romanelli, entender essas regras não diminui a importância de fazer um bom trabalho. Ajuda a decidir onde concentrar energia e quais condições precisam ser discutidas. “Não se trata de abandonar a entrega, porque resultado continua sendo fundamental. Trata-se de deixar de acreditar que trabalhar cada vez mais é a única variável sobre a qual você pode agir. É preciso aprender a ler o contexto, entender critérios, negociar condições, construir sustentação e decidir conscientemente onde vale a pena continuar investindo”, finaliza.
