Nos últimos meses, tenho ouvido uma mesma frase se repetir em diferentes contextos: o modelo que sustentou a internet nas últimas décadas está mudando e não é uma mudança incremental. É estrutural.

A forma como as pessoas buscam informação já não é mais a mesma. O comportamento deixou de ser baseado em navegação para se tornar baseado em resposta. Em vez de acessar diferentes sites, comparar conteúdos e percorrer um funil, o usuário pergunta e recebe uma síntese pronta, muitas vezes sem sair do lugar.

Isso tem um impacto direto no marketing como conhecemos. O tráfego diminui, o clique perde relevância. Mais do que uma crise de distribuição, o que está acontecendo é uma mudança de lógica sobre o que, de fato, gera valor.

Se antes o jogo era sobre volume, agora passa a ser sobre confiança. É aqui que a creator economy começa a ocupar um espaço ainda mais estratégico. Na prática, o consumidor chega cada vez mais informado. Ele já pesquisou, já comparou, já eliminou opções. O que falta não é mais informação. Falta validação, entender se aquilo faz sentido dentro da sua realidade, do seu repertório e do seu momento.

É nesse ponto que o criador de conteúdo se torna decisivo. Porque o que ele entrega não é apenas conteúdo. É leitura de contexto, interpretação e opinião, algo que não é replicável.

Existe uma tentação clara do mercado em escalar produção com o apoio da inteligência artificial. Isso faz sentido do ponto de vista de eficiência, mas também cria um efeito colateral importante: a padronização.

Quando todo mundo passa a produzir dentro das mesmas estruturas, com os mesmos estímulos e referências, o resultado é um ecossistema cada vez mais homogêneo, com conteúdos corretos, bem formatados, mas pouco memoráveis.

Em um ambiente onde a atenção já é disputada ao extremo, ser esquecível é um problema real de negócio. O que temos observado na prática é que aquilo que foge desse padrão começa a ganhar ainda mais valor. Conteúdo com identidade, com ponto de vista claro, com personalidade. Conteúdo que não parece genérico, porque é isso que cria conexão.

E conexão, hoje, é o que sustenta a conversão. O funil de vendas também mudou. Ele ficou mais curto, mais direto e também mais exigente. Não existe mais tanto espaço para convencimento ao longo do caminho. Quando o consumidor chega, ele já está muito mais próximo da decisão.

Nesse cenário, creators deixam de ser apenas canais de distribuição e passam a ser parte ativa dessa decisão. Não pelo tamanho da audiência, mas pela relação que constroem com ela, criando assim uma comunidade.

Para as marcas, isso exige uma mudança importante de mentalidade. Não se trata mais de buscar alcance a qualquer custo, mas de entender quais são os territórios de influência que realmente importam e quem são as vozes que têm legitimidade para ocupar esse espaço.

Existe um paradoxo interessante acontecendo. Quanto mais a tecnologia avança na capacidade de gerar respostas, mais relevante se torna aquilo que não pode ser automatizado.

Originalidade, repertório, vivência e ponto de vista. No fim do dia, é isso que diferencia um conteúdo que apenas informa de um conteúdo que influencia. Em um momento em que o acesso à informação se torna cada vez mais comoditizado, essa diferença é exatamente o que define quem continua relevante e quem desaparece.

Ingrid Spyker é fundadora da Creators Brand e possui mais de 20 anos de experiência em comunicação, marketing de influência e desenvolvimento de negócios. Ao longo da carreira, atuou em empresas nacionais e multinacionais liderando projetos de branding, publicidade, licenciamento, produção de conteúdo e gestão estratégica de talentos. Hoje, comanda a Creators Brand, hub especializado em creator economy que conecta creators, marcas e projetos proprietários com foco em posicionamento, monetização e construção de carreira de longo prazo.

Keep Reading