A inovação faz parte da história. Ao longo dos séculos, sempre houve soluções disruptivas que transformaram o modo de trabalhar.

Basta uma pesquisa rápida para ver que, quando a eletricidade chegou à indústria, muitas fábricas acreditaram que era só trocar as máquinas a vapor que tudo já estava resolvido. Ou, quando os computadores ganharam os escritórios, que era só ligá-los e pronto. Essa mesma lógica veio com o boom da internet.

Algumas empresas ganharam eficiência, mas outras perceberam que a transformação de verdade precisava ir além da implementação da tecnologia. É preciso mudar a mentalidade, cultura e reorganizar toda a cadeia. Com a Inteligência Artificial, vivemos um momento parecido.

Boa parte das organizações concentra seus esforços em automatizar tarefas, reduzir custos e acelerar processos. Faz sentido, pois esse é um movimento natural para qualquer tecnologia que chega ao mercado prometendo ganhos rápidos.

O problema é imaginar que essa vantagem será suficiente para sustentar a diferenciação nos próximos anos.

Um estudo da McKinsey chama atenção para isso ao analisar onde a IA gera valor para as empresas. A produtividade continuará sendo um benefício importante, mas tende a se tornar algo mais básico conforme a tecnologia fica mais popular.

O mesmo levantamento mostrou que quase 9 em cada 10 empresas haviam implementado IA em pelo menos uma função de negócios. No entanto, 94% dos entrevistados disseram que não veem valor significativo nesses investimentos.

Se todos conseguem produzir mais com as mesmas ferramentas, a eficiência não é mais uma vantagem competitiva, se torna uma condição essencial para permanecer no mercado.

É justamente nesse momento que precisamos encontrar a pergunta certa. Em vez de discutir onde a IA consegue economizar minutos ou reduzir custos, talvez seja mais interessante perguntar onde ela permite fazer algo que antes simplesmente não era possível.

Vejo muitas organizações discutindo qual processo pode ser automatizado, quando deveriam estar avaliando quais processos já não fazem mais sentido da forma como foram desenhados.

A tecnologia não serve apenas para acelerar uma operação existente. Em muitos casos, ela permite redesenhar fluxos, eliminar etapas, integrar áreas que sempre trabalharam separadas e criar modelos de relacionamento diferentes com clientes e parceiros. Nesse momento, a discussão deixa de ser operacional para se tornar estratégica.

Esse é um ponto que costuma passar despercebido porque os ganhos de produtividade aparecem rapidamente nos indicadores. Já a transformação do modelo de negócio exige tempo, experimentação e, principalmente, disposição para questionar práticas que funcionaram durante muitos anos.

Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença porque desloca o foco da ferramenta para o negócio. Os profissionais também precisam acompanhar essa evolução.

Aprender a utilizar plataformas de IA continuará sendo importante, mas dificilmente será o fator que distinguirá alguém no mercado. O diferencial estará na capacidade de interpretar problemas, conectar informações de diferentes áreas, entender o comportamento dos clientes e identificar oportunidades que uma ferramenta, sozinha, não consegue enxergar.

A Inteligência Artificial continuará evoluindo. Isso é inevitável. A questão é que seu valor dificilmente será definido pela quantidade de tarefas automatizadas. Ele será determinado pela capacidade de reconhecer onde a tecnologia muda a lógica do negócio.

Saber usar a IA onde ela faz sentido é o que vai criar vantagem competitiva.

Por Cristóvão Wanderley, Sócio-diretor da Stratlab, especialista em tecnologia, inovação e dados e participante do programa LinkedIn Creators